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O hibridismo entre tartarugas-cabeçuda e tartarugas-oliva no nordeste brasileiro por Luciano Soares

29/09/2020 - Novo estudo em parceria com a Fundação Projeto Tamar sugere que tartarugas híbridas não estão em desvantagem reprodutiva em relação às espécies parentais. ↓

A hibridização ou hibridismo, ocorre quando duas espécies distintas se reproduzem. É um processo evolutivo e ecológico e já foi observado entre diversos grupos animais e vegetais. Este tipo de evento reprodutivo pode ter consequências importantes para a conservação, especialmente em espécies ameaçadas de extinção. Apesar deste fato ser conhecido, ele é raro em quase todas as populações de tartarugas marinhas ao redor do mundo. Porém, no litoral brasileiro, isso acontece com frequências extraordinariamente altas. Em 2010, por exemplo, reportamos uma ocorrência de 27% de hibridismo entre tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) e tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea) desovando na região norte da Bahia e ao longo do litoral de Sergipe.

Para entender melhor este processo e suas possíveis consequências para a conservação, usamos uma abordagem multidisciplinar e analisamos vários parâmetros reprodutivos, padrões migratórios e distribuição das áreas de alimentação por meio de análise genética, telemetria via satélite e análise de isótopos estáveis de carbono (δ13C) e nitrogênio (δ15N). O uso integrado destes métodos é eficaz para comparar características ecológicas ou comportamentais de híbridos e espécies parentais.

A primeira parte do estudo consistiu em classificar geneticamente (com base no DNA mitocondrial e nuclear) 154 fêmeas adultas que desovaram em praias da Bahia e Sergipe monitoradas pela Fundação Projeto Tamar. Como resultado, identificamos 91 tartarugas-cabeçuda, 38 tartarugas-oliva e 25 tartarugas híbridas.

Além disso, comparamos os dados morfológicos das fêmeas (comprimento curvilíneo e largura curvilínea da carapaça) e parâmetros reprodutivos (número de ovos, sucesso de eclosão, número de filhotes, período de incubação) de 405 ninhos entre híbridos e as espécies parentais. Neste caso, não encontramos diferenças significativas entre os três grupos, indicando que híbridos e espécies parentais produzem um número semelhante de filhotes por ninho. Portanto, os dados sugerem que os híbridos não estão em desvantagem reprodutiva em relação às espécies parentais.

A análise do comportamento migratório foi feita através do rastreamento por satélite de oito fêmeas híbridas e dados previamente publicados de estudos de telemetria de tartarugas-cabeçuda e tartarugas-oliva desenvolvidos pela Fundação Projeto Tamar. Nosso estudo revelou que tartarugas híbridas compartilham áreas de alimentação com ambas as espécies parentais. Os dados também mostraram que os animais híbridos realizaram migrações próximas a costa entre áreas de alimentação e desova, semelhantes as relatadas anteriormente para as tartarugas-cabeçuda e oliva.

Para a análise de isótopos estáveis, coletamos amostras de pele em 69 fêmeas: 30 tartarugas-cabeçuda, 28 tartaruga-oliva e 11 tartarugas híbridas. Do total de animais amostrados, 20 eram de tartarugas que também haviam sido rastreadas por satélites:  7 tartarugas-cabeçuda, 5 tartarugas-oliva, 8 híbridas. Os resultados reafirmaram o padrão demonstrado pela telemetria, uma vez que os nichos isotópicos das híbridas se sobrepõem extensivamente com ambas as espécies parentais.

Assim, dadas as semelhanças apresentadas entre híbridos e suas espécies parentais referente os parâmetros reprodutivos, ecológicos e comportamentais analisados, concluímos que esses híbridos podem persistir junto a outras populações de tartarugas marinhas nas mesmas áreas, e que estes animais também estão sujeitos às mesmas ameaças que as espécies parentais ao longo do seu ciclo de vida. Pretendemos continuar com outros estudos entre estes grupos de animais, para aprimorar nosso conhecimento sobre como o hibridismo poderá influenciar a estrutura das populações no Brasil ao longo dos próximos anos.

 

Este estudo foi realizado pelos seguintes pesquisadores:

Luciano S. Soares1,2, *, Karen A. Bjorndal1,2, Alan B. Bolten1,2, Marta L. Wayne2,3Jaqueline C. Castilhos 4, Milagros López-Mendilaharsu5, Maria A. Marcovaldi5, Sibelle T. Vilaça6, Eugenia Naro-Maciel7


1 Archie Carr Center for Sea Turtle Research, University of Florida, Gainesville, FL 32611, EUA
2 Departamento de Biology, Universidade da Florida, Gainesville, FL 32611, EUA
3  Instituto de Genetica da Universidade da Florida, Universidade da Florida, Gainesville, FL 32611, EUA
4 Fundação Projeto Tamar, Aracaju, SE 49035-730, Brazil
5 Fundação Projeto Tamar, Salvador, BA 41510-045, Brazil
6 Departamento de Ciencias da Vida e Biotechnologia, Universidade de Ferrara, Ferrara 44121, Italia
7 Liberal Studies, Universidade de Nova York, New York, NY 10003, EUA

Todas as amostras foram coletadas em parceria com a Fundação Projeto Tamar. As amostras foram coletadas e analisadas com as devidas licenças de pesquisa.

O estudo foi financiado através de recursos provenientes de: PADI Foundation, Archie Carr Center for Sea Turtle Research general funds, Tropical Conservation and Development Grant, Maturo Excellence Fund, Lerner-Gray Memorial Fund, College of Staten Island of the City University of New York, Beckman Foundation, Michael L. May Research Grants, e uma generosa doação de Lalita Shastry.

Curriculo Luciano S. Soares
Coordenador Tecnico da Fundação Projeto TAMAR, Bahia – 2004-2010.
Doutor pelo Departamento de Biologia, Universidade da Florida – 2018.
Pesquisador Cientista Assistente, Program de tartarugas mainhas, Florida Fish and Wildlife Research Institute (FWRI), Florida Fish and Wildlife Conservation Commission (FWC) – 2018 – Atual
Pesquisador Cientista Assistente, Departamento de Biologia, Universidade da Florida – 2019 – Atual.

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